O miúdo que ninguém vai esquecer ♥

Um dia, há cerca de 5 ou talvez 6 anos atrás, conheci um miúdo que vai deixar uma marca indelével no mundo.

Foi-me apresentado por conhecidos comuns e a amizade foi imediata, o que é pouco comum. Crescemos dentro de uma sub-cultura punk e estavamos desde cedo enraizados no espírito DIY onde a criatividade e o engenho eram apenas balizados pela nossa própria vontade, que era insaciável. Foi ai que o vi crescer, foi ai que o vi criar e desenvolver coisas e ideias magnificas.  
Ele foi a minha companhia da tarde no Bairro Alto, onde trabalhava na altura, durante muito tempo. Começamos por frequentar assiduamente a Ben&Jerrys e, mais recentemente, era aliciada por ele a ir tomar mojitos para a tasca dos Canários às 4h da tarde. 
Não há na minha memória uma sequência exacta que registe cronologicamente todo o seu processo. Começo pela música. Vi-o a passar de um miúdo tímido, a minha companhia dos concertos, para um homem que afinal tocava e cantava tão bem como o escondia. Com um grupo de amigos criou bandas distintas e conseguiu que cada uma reflectisse na perfeição toda a imensidão que ele é, em termos sonoros. Aliás, tenho que fazer um esforço de abstracção quando estou em casa a ouvir as músicas que são feitas, em parte, por ele. Demasiado bom. Enfim, seguiram-se os discos, os splits com outras bandas e as tours pelo mundo. Insatisfeito, criou uma editora, a sleepcity records (http://sleepcityrecords.wordpress.com/) que continua alive and kickin´, não obstante o facto de ele estar sempre ocupado com este, outro ou aquele projecto.
Um pouco antes disto comecei a reparar que os posters dos concertos a que ia estavam exponencialmente melhores do que alguma vez tinham sido. As capas dos álbuns das bandas que conhecia estavam a ter um certo "je ne sais quois" de bom gosto, provocavam um atraente estimulo visual que contrastava com a imagem severa e, por vezes, aborrecida a que os artworks das bandas punk já me tinham (mal) habituado. Posso dizer que sentia um certo júbilo em ir a concertos cujos cartazes eram autênticas serigrafias expostas na cidade. Era ele! Percebi que afinal, o miúdo também sabia desenhar. Lembro-me de um dia ele me dizer que ia para o Ar.co tirar um curso de design gráfico ou algo congénere. Até à altura não tinha visto muito do seu trabalho mas nem por isso senti que ele fosse ser mais um "designer by the book". Escusado será dizer que não me enganei, uma vez que ele ia paulatinamente expondo os sinais de algo singular e grandioso.
Começou, quase imediatamente, a desenvolver e a contactar com plataformas para a exposição do trabalho.Desde a Fabrica (features) até ao Bacalhoeiro, já foram vários os lugares onde vi os trabalhos dele, em exposições conjuntas, com amigos artistas das mais variadas áreas, da fotografia à ilustração. O puto não pára e é este dinamismo, energia e a inesgotável criatividade que o levam além de previsões. Olho para ele como se de um verdadeiro centro gravitacional se tratasse.
Penso que a música, as viagens e toda a envolvente DIY foram o propulsor deste crescimento e conseguinte desenvolvimento das notáveis aptidões criativas que ele tem vindo a mostrar. Em bom rigor, o DIY foi usado durante muito tempo como uma conveniente desculpa para a imperfeição ou para algo inacabado, no entanto, entendo que ele cedo se apercebeu disso e mudou o lema para " Faço eu mesmo, mas faço bem". Logrou sucesso. Para mim, é evidente que, o fundamento de tudo se encontra na magnifica pessoa que ele é. O facto de ser um tremendo artista é apenas uma das inferências possíveis.
Por cá, ele mantêm-se no epicentro de múltiplas funções e colaborações, é a prova viva de que o multitasking não é uma caracteristica exclusivamente feminina. É ​criativo e designer na Arquitectura 21, designer na Pure Magazine com a Sara Gomes (visitem também o site dela, é extraordinária. thesecondbushome.com), colaborou já com a Pure Ativism (Myspace Portugal), Wunderman (Microsoft), a MSTF Partners e ilustra mensalmente a Parq Mag. Isto claro, encaixado perfeitamente na roda-viva dos seus trabalhos vários enquanto designer e ilustrador freelancer.
Um dia disse-me assim: " Tens que vir ao meu jantar de despedida, vou para NYC!" 
Eu sabia. É lá o lugar para as pessoas como ele. 
Entrou na School of Visual Arts e aí foi aluno de James Victore, Luke Hayman (Pentagram) e John Gall (Director Artístico da Vintage Books). WOW. E não me surpreendo pelos seus magníficos tutores, antes pelo impacto que o facto de ter sido aluno deles teve no crescimento dele enquanto artista. 
Ainda há dias fomos almoçar, eu tinha 1000 questões e a minha curiosidade e interesse demandava 1001 respostas. Quando lhe perguntei como tinha corrido o meeting com o Sagmeister, uma das pessoas que sei que ele admira, respondeu-me: 
" Ana, o escritório dele é mínimo mas a energia é brutal. As observações que ele faz aos trabalhos são altamente pertinentes e se tomares atenção e estiveres disposto a ser melhor, é precisamente isso que acontece, tornas-me melhor, evoluis".
Confirmei as minhas suspeitas no decorrer no almoço, em NYC ele encontrou o lugar ideal, um lugar onde a concorrência é um estímulo, onde bons artistas incentivam outros a serem melhores artistas, onde a criatividade é a palavra de ordem e onde há espaço e, não muito tempo, para desenvolver e criar livremente. É lá que ele pertence.
Sempre o vi como alguém especial. Durante algum tempo não soube verbalizar o que o distinguia dos demais. Havia alguma coisa que transcendia as palavras, com as quais sempre mantive uma relação tão próxima e que escassas vezes me desampararam. Estou certa de que nunca irei conseguir adjectivar tudo o que experimento nem rotular tudo o que vejo portanto contento-me pelo que sinto, desta vez. Pelo mesmo motivo não me é possível falar do que sinto quando olho para o trabalho dele. Possivelmente usaria de um substantivo próprio ao invés de um comum ou de um adjectivo. O nome dele, era o que eu diria. No trabalho eu vejo um espelho daquilo que ele é, do longínquo horizonte cultural que o inspira e que me é familiar. Possivelmente já passaram as vossas pupilas sobre trabalhos dele mas no caso da inversa ser verdadeira, deixo-vos com alguns dos meus preferidos para que também vocês possam conhecer um pouco deste sujeito, que eu considero de excepção.
Não pretendo fazer-lhe justiça com o presente texto, uma vez que ficaria aquém de qualquer expectativa da minha parte, tão somente pretendo dar a conhecer aos meus seguidores, magníficos estetas e tão exigentes apreciadores de estimulo visual, o trabalho do meu querido amigo, o Bráulio. Que por acaso é Amado também.

Podem vê-lo aqui.
(Logo que o servidor do meu blog me permita partilhar com os meus amados seguidores as imagens a que me refiro, fá-lo-ei. Até lá, visitem o site e sejam felizes ♥)


Stay Gold.

3 comentários:

Cátia Menezes Esteves disse...

Gostei tanto deste post Ana.
Bem me lembro de há anos atrás ver os cartazes que o Bráulio criava para os concertos, e também me lembro de pessoas que o criticavam porque ele nem sequer tinha estudado design na altura, e não cumpria as 'regras', e não sabia o que estava a fazer! E eu pensava e respondia 'mas eu até gosto, está fixe' (sim, a minha apreciação artística não ia muito além de pensamentos/comentários como este ahahah) mas sim, eu gostava, talvez porque também ignorava as tais regras. Os anos passaram, e agora através de ti aqui, vejo que ele estudou, praticou, arriscou, evoluiu....e é assim mm que deve ser! E é também uma lição para o Portugal dos Pequeninos em que vivemos, não podemos deixar de sonhar/pensar em grande:)

Joe Ricolli disse...

boa noite, eu acabei de ler o teu texto e não sabes o quão inspirador foi para mim toda a esta espécie de biografia que aqui postaste, ia-te pedir com grande vontade a tua permissão para publicar este texto no meu blog, pois acho que isto é um caso de sucesso, um grande exemplo e alguém que pela sua obra e resultados incute involuntariamente grande inspiração a quem o ler e era nesse contexto que o queria postar.

Só o farei depois de qualquer tipo de resposta tua, deixo aqui mais a baixo o blog onde quero publicar e se por alguma razão não gostares do ambiente do blog, ou simplesmente não quiseres diz. Como é normal vai estar com as devidas assinaturas e como citação.

http://oputobionico.blogspot.com/

Ana disse...

Joe, antes de tudo, um sincero obrigada pelas tuas palavras. É também para mim motivo de inspiração e motivação receber um feedback tão positivo da tua parte.

Podes, com certeza, usar o texto. Peço-te apenas que o credites devidamente. :)

Vou seguir o teu blog, gostei.

Beijos e, mais uma vez, obrigada!